Sobre o capitalismo e Jesus

Sobre o capitalismo e Jesus

Por Rubem Alves

Artigo extraído do Jornal Correio Popular

Caderno C (Campinas, Domingo, 2 de Março de 2003).

 

Um dos meus leitores ficou bravo comigo por coisas que disse sobre o capitalismo e Jesus Cristo. A culpa deve ter sido minha. Por vezes eu não me explico bem e o resultado é a confusão. A falta de clareza faz com que alguns leitores, a partir do que escrevo, entendam coisas que não estavam na minha cabeça ao escrever. Vou tentar ser mais claro.

Eu disse que o capitalismo é um jogo no qual não há lugar para a bondade. O meu leitor ficou bravo porque ele deve conhecer muitos capitalistas que são boas pessoas. Eu também conheço vários. Acontece que o jogo econômico chamado capitalismo em tudo se parece com outros jogos, como, por exemplo, o xadrez. Um jogador de xadrez, no ato de jogar xadrez, tem de se esquecer da namorada, da mãe doente, de Deus, de amor ao próximo, do seu amor por flores e Mozart. No momento em que joga xadrez ele é apenas uma máquina que joga xadrez. Tanto assim que tem havido partidas de xadrez entre os grandes mestres e computadores. Computadores, como se sabe, não têm sentimentos. Computadores que jogam xadrez são maquinas de jogar xadrez.

O capitalismo é também um jogo com regras precisas. Se no jogo de xadrez o objetivo é o xeque-mate sobre o adversário, no jogo do capitalismo o objetivo é o lucro. Imagine que dois homens vão ao teatro e compram ingressos para um concerto. Na hora do concerto os dois se dirigem ao teatro. Um deles pega o seu ingresso, entrega-o ao porteiro e entra. Ele comprou o ingresso porque desejava ter o prazer da música. O outro, ao contrário, fica perto da bilheteria. Ele sabe que a lotação está esgotada e que haverá retardatários amantes de música que não poderão entrar. Mas eles querem entrar. Chegam os retardatários. Os ingressos se esgotaram! Nesse momento o dito homem mostra o seu ingresso e diz que poderá vendê-lo... Pelo dobro do preço. Na verdade, ele não gosta de música. Ele não comprou o ingresso para assistir ao concerto. Ele comprou o ingresso para vendê-lo pelo dobro do preço. Assim, depois de vendê-lo, ele tem o dobro do dinheiro que tinha antes. O homem que comprou o ingresso e assistiu ao concerto trocou o seu dinheiro por prazer. Ficou sem dinheiro. Não fez o jogo do capitalismo. O segundo trocou o seu dinheiro por mais dinheiro. Fez o jogo do capitalismo. Capitalismo é um jogo econômico em que o dinheiro é usado para se ter mais dinheiro. A isso se dá o nome lucro.

Usei o exemplo do concerto. Mas poderia ter sido qualquer outra coisa: Uma casa, um carro, uma bicicleta, livros, CDs, flores, salsichas, pães, perfumes, papel higiênico, etc. As empresas que fabricam esses produtos o fazem para ter um lucro, isto é, para ganhar mais que aquilo que investiram. Se, por acaso, o produto das vendas é menor que o dinheiro investido, elas têm prejuízo. Se o prejuízo se acumula elas ficam sem dinheiro. Ficando sem dinheiro vão à falência. Isto é: Estão fora do jogo!

O lugar onde esse jogo é jogado com mais fúria são as bolsas de valores. Bolsas de valores são lugares onde se vende e se compra participação em empresas econômicas. Ao comprar ações da Petrobras eu fico participante dos lucros e prejuízos da Petrobras. Se a empresa for bem sucedida, minhas ações valorizam. Isto é: Eu ganho mais dinheiro com o dinheiro que investi. Exatamente igual ao que aconteceu com o homem que vendeu o seu ingresso para o concerto...

Imaginemos agora que você tem R$ 50.000,00. Não quer deixá-lo no banco por causa da inflação. A bolsa de valores oferece maiores possibilidades de lucro. Ai, você resolve comprar ações. De que empresa? São tantas! Olhe aquela: Lar das Velhinhas Desamparadas comercializa o que elas fazem, lindas toalhinhas de crochê. As Velhinhas ficariam tão felizes se vendessem suas toalhinhas de crochê! Mas há também as ações de uma fábrica de armas. Cruz credo! Esconjuro. Sou pacifista. Não quero ter ações de uma fábrica de armas. Nesse momento um capitalista que mora dentro de você diz: “Preste atenção. As ações do Lar das Velhinhas Desamparadas estão em baixa e provavelmente vão continuar a cair, porque não He ninguém interessado em comprar as toalhinhas de crochê. Mas as ações da fábrica de armas estão em alta porque todo mundo quer comprar armas.” Num relance você percebe: Se você seguir o impulso da sua bondade você vai perder os R$ 50.000,00. Mas se você seguir a lógica do jogo e comprar ações da fábrica de armas é possível que você fique rico. Ai você compra as ações da fábrica de armas. Mas faz uma promessa: “Se eu ganhar bastante dinheiro vou fazer uma contribuição para o Lar das Velhinhas Desamparadas.

Sim, há muito lugar para atos generosos na sociedade em que vivemos. Mas, essa generosidade acontece fora do jogo. O jogo do capitalismo, exemplificado na bolsa, não tem lugar para generosidade. O que funciona é a fria lógica do lucro que leva um cidadão pacifista a comprar ações de uma fábrica de armas. Lembro-me de uma conferência de um executivo nos Estados Unidos. As fábricas de sua empresa soltavam uma fumaça que poluía o ambiente e causava danos à saúde das pessoas que moravam na cidade. Ele declarou que o seu desejo era comprar filtros para diminuir a poluição. Mas se a sua empresa investisse dinheiro nos equipamentos antipoluição os lucros seriam menores e os acionistas trocariam a sua empresa por outras que dessem mais lucros, criando problemas financeiros para sua própria empresa. Sua empresa, a despeito da sua bondade, continuou a poluir.

Uma boa dica para se entender o capitalismo é ler um dos divertidíssimos livros da série Asterix: Obelix & Cia! É de rachar de rir.

A outra coisa que ofendeu o meu leitor foi eu ter afirmado que Jesus “não tinha o menor interesse na política.” É preciso reconhecer que a vida de todos nós acontece em meio às teias da política. A vida de Jesus, por exemplo, começa com uma perseguição movida pelo rei Herodes que força a sagrada família a emigrar para o Egito e termina com a punição política da crucificação permitida por Pilatos, representante de Roma.

Jesus tinha uma visão de um mundo feliz, visão que lhe veio dos profetas: O leão comendo capim com o boi, as espadas sendo transformadas em arados, as crianças brincando com as serpentes, os famintos tendo o que comer, uma sociedade de paz, amante das crianças, onde não se faria mal a ninguém. Lendo os textos bíblicos alguns concluíram que Jesus estava propondo ações políticas para se chegar a essa sociedade. Política é o conjunto de ações para construir um futuro. E todos nós estamos envolvidos nisso. Mas a cabeça e o coração de Jesus eram diferentes. O meu leitor bravo disse: “Todo mundo sabe...” Pois o que Jesus pregava não era o que todo mundo sabe, mas precisamente o que todo mundo não sabe. Jesus pensava ao contrário. Essa é a razão por que o apóstolo Paulo disse que a sabedoria de Deus é loucura para os homens. Jesus não propunha ações políticas para se chegar ao mundo de seus sonhos. O mundo de seus sonhos não era algo a ser construído pelas ações dos homens na sua caminhada para o futuro. Por isso Ele proclamava: “O Reino de Deus é chegado...” chegava... Vindo do futuro! Que coisa mais louca! Um mundo que vem do futuro! Não se tratava de construir o Reino. Tratava-se de ser possuído por sua beleza. Da mesma forma como se é possuído pela beleza de uma melodia! Ou possuído pela felicidade da pessoa amada que vai chegar! A melodia não sou eu que faço. Eu só a posso ouvir, sendo tocada, ao longe... Quanto à pessoa amada, de onde estou nada posso fazer para apressar a sua chegada. Só posso esperar. Daí a importância da esperança! E, enquanto espero, sou possuído pela alegria. A esperança dá alegria, a esperança é embriagante! Rio, canto, danço, preparo a comida, preparo o quarto... Daí o significado do amor. Ter esperança é viver sob o encanto de uma melodia que nos vem do futuro. Amar é dançar essa melodia no presente. As experiências de amor e bondade, tão centrais nas palavras de Jesus, não eram atos políticos para produzir o futuro. Eram antes explosões de futuro dentro dos homens e mulheres possuídos por Ele.

Pode ser que, mesmo explicando, a discordância permaneça. Não tem importância. O que importa é que a discordância não se transforme em acidez. Uma coisa ruim é rejeitar uma idéia logo de saída, por não ser igual à idéia que se tem sobre o assunto. Se procedermos assim, ficaremos sempre do mesmo jeito. As idéias iguais não nos fazem crescer. As idéias diferentes, ao contrário, sacodem a mesmice da nossa vida interior e nos fazem pensar. E quando isso acontece a gente vê coisas que não via antes...

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