Igreja nas casas, caminho para espiritualidade integral

Igreja nas casas, caminho para espiritualidade integral

 

Vivemos tempos difíceis em nossa compreensão sobre igreja em função de uma espiritualidade que não responde concretamente a sua natureza e expressão na sociedade. Voltar à igreja neotestamentaria em nosso contexto onde os horizontes culturais não são mais os mesmos nos leva a um campo de discussões sem fim, porque a igreja não pode ser compreendida à parte de seu contexto. 

Não obstante, existem princípios e valores eternos aplicáveis em qualquer contexto cultural. Ao tratarmos, portanto, de igrejas nas casas queremos abordar algo que é inerente à vida em família, que é relacionamentos próximos e comprometidos que facilitam o exercício de uma espiritualidade integral. Não pretendemos aqui neste campo, exaurir o tema, propomos apenas um caminho que em nosso tempo tem sido tratado a nosso ver, de maneira equivocada como método, estrutura de crescimento, modelos gerenciáveis, etc.

Por espiritualidade integral no âmbito de igreja nas casas, propomos um estilo de vida comprometido com Jesus Cristo e com as escrituras no poder do Espírito Santo.

1. O que é Espiritualidade Integral

Sem pretensão de uma definição exaustiva, apenas com a intenção de aplicar este conceito a igreja nas casas se faz necessário compreender os termos:

Espiritualidade: Diz respeito à maneira como expressamos os conteúdos de nossa fé. A fé cristã não pode ficar enclausurada em nossas crenças e confissões, sem que seja demonstrada através de ação consequente. A fé sem obras é morta (Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” Tiago 2.17).

Integral: Diz respeito a algo inteiro (espírito, alma e corpo) e como nossa espiritualidade afeta a comunidade e a sociedade como um todo. Com isto, queremos dizer que o individual influencia a comunidade e esta a sociedade. A respeito disso, alguém disse que não foram os aspectos sócio-políticos ou econômicos que derrubaram o império romano, mas a ética cristã baseada no amor que freava o ímpeto violento através do qual as autoridades romanas sustentavam o império. Embora seja importante, o crescimento numérico não é o critério para definir a espiritualidade da igreja, mas como ela impacta a sociedade e promove transformações sociais e culturais relevantes segundo as escrituras.

2. Uma Visão Espiritual 

Em uma de nossas reuniões de oração, um dos pastores disse ter tido um sonho de um ser com três tentáculos que procurava atingir a igreja. Oramos e discernimos que os alvos de satanás (ser com três tentáculos) era:

a. A liderança da igreja;

b. As famílias; e,

c. A próxima geração, inclusive as crianças.

Discernimos também que a estratégia para deter deste intento maligno se resumia em três pontos:

a. Renovação de nossa fé na palavra escrita. A Bíblia é a palavra de Deus;

b. Restauração das famílias e suas funções dentro do atual contexto; e,

c. Fazer discípulos comprometidos com Jesus e seu reino.

A igreja nas casas se torna uma realidade espiritual e existencial, com famílias que crêem na palavra de Deus, são discípulos e expande o reino de Deus a partir de suas próprias casas, aonde vizinhos, parentes, amigos, colegas de trabalho e estudos se tornam um campo missionário. Este é inclusive um caminho para a missão translocal e transcultural.

 

3. Problemas da Cultura Atual

Família: As famílias dos tempos bíblicos vetero-testamentario eram formadas por clãs divididas em tribos (a família patriarcal). Depois tivemos a família estendida (pais, avós, netos, sobrinhos, primos, compadres, etc..). Hoje temos por causa da revolução industrial e urbana a família nuclear (pai, mãe e filhos). Agora com a perda dos referenciais absolutos de verdade e moralidade, cada membro da família nuclear esta se tornando uma entidade autônoma. Aqui ocorre a perda de identidade cultural e o esfacelamento da missão dos pais em relação à educação dos filhos.

Igreja: São guetos divididos em denominações e organizações para-eclesiásticas, com ênfase em eventos, métodos, psicologia, modelos de crescimento gerenciáveis, completamente envolvida pelo sistema mundano em suas cosmovisões da vida, e está como a sociedade secular, fragmentada em grupos diversos. A igreja perdeu sua identidade bíblico-teológica.

 

4. Igrejas nas Casas e Espiritualidade Integral

O contexto de vida da igreja primitiva eram as casas:

- Rm 16.5 - se reúne na casa deles;

- Rm 16.14 - se reúnem com eles;

- 1 Co 16.19 - igreja que está na casa deles;

- Cl 4.15 - hospeda em sua casa; e,

- Fm 1.2 - igreja que está em sua casa.

Estas expressões, se reúne, está e hospeda indicam um tipo de espiritualidade dinâmica que envolvia a família toda na obra do Senhor. Muitas igrejas nas casas de uma cidade constituíam a igreja na cidade (1 Co 1.2). Basicamente o contexto oferecia condições para evangelização, discipulado, comunhão e boas obras (Conferir a ressurreição de Dorcas em At 9.36-42. Ela era uma discípula notável pelas boas obras. Por causa de sua ressurreição muitos se converteram ao Senhor). O contexto da igreja nas casas permitia a proximidade, a hospitalidade, a solidariedade e os relacionamentos. Muito diferente de nossas igrejas hoje, onde os membros desenvolvem uma espiritualidade concentrada nos prédios, distante de onde vivem como cidadãos comuns, sem compromisso com uma espiritualidade integral a partir de sua casa.

Espiritualidade Integral envolve a família toda:

Em Rm 16, temos nove mulheres identificadas na obra do Senhor e certamente quando lemos os da casa (Rm 16.10, 14 e os irmãos que se reuniam nas casas temos mais mulheres e filhos inclusive). Febe, por exemplo, servia a todas as igrejas nas casas em Cencréia. Nenhuma delas é identificada por títulos. Ser mãe, por exemplo, é uma missão (cf. 2.15; 3.14-15 - A espiritualidade está comprometida com a condição biológica).  Não sabemos ainda as conseqüências todas do erro que mães estão cometendo, terceirizando a educação de seus filhos. O excesso de especialistas médicos e para-médicos para tratar problemas existenciais das crianças aumenta em proporções gigantescas Parece que fomos criados para o sistema, não para o propósito de Deus em Cristo de ter uma grande família de muitos filhos iguais a Jesus. Espiritualidade integral que não começa em casa não é espiritualidade bíblica.

Havia vínculos definidos:

Embora houvesse uma única igreja dividida nos lares, eles não eram dispersos. Podemos deduzir isto quando lemos: “... a igreja que se reúne com eles” (Rm 16.5). Ou ainda: “... os santos que se reúnem com eles...” (Rm 16.15).

Havia governo de presbíteros sob a supervisão de equipes apostólicas:

Diferentemente do que muita gente pensa, as igrejas apostólicas eram organizadas, tinham reuniões regulares, celebravam a ceia juntos e eram supervisionadas e pastoreadas por presbíteros nomeados e igualmente supervisionados pelos apóstolos. É preciso compreender que a igreja não é uma democracia, sim uma fraternidade comprometida com Jesus, seus ensinos e mandamentos (Cf. Mt 28.18-20 e At 20.17-35).

Concluindo, igrejas nas casas não é uma metodologia a ser implantada, mas um estilo de vida a ser praticado. Achamos que vamos ter que rever muitas coisas, se quisermos ter uma espiritualidade integral. Não é preciso nisto usar desconstrucionismos ou ênfases setorizadas, mas sinalizarmos mudanças que apontam para uma nova realidade de sermos uma igreja que vive e pratica a espiritualidade integral.

 

 

Contacte-nos