Conflito e Busca de Identidade da Igreja nos Tempos Atuais

Conflito e Busca de Identidade da Igreja nos Tempos Atuais

Conflitos surgem com a necessidade de novas propostas de engajamento e militância da igreja face as mudanças sociais e os novos cenários dentro do processo histórico. A igreja precisa continuamente reciclar-se, sem contudo, alterar sua constituição, perder sua identidade e seus valores bíblicos. Todavia, este processo é doloroso e lento, por causa de paradigmas conceituais e institucionais, doutrinas, forma litúrgica, etc, que não se ajustam mais aos novos tempos. Podem se tornar odres velhos, que não comportam mais a dinâmica da vida. Daí a natureza dos conflitos, que podem serem assim classificadas:

1.     FALTA DE ECLETICIDADE DIANTE DE SITUAÇÕES NOVAS

Por ecleticidade, não devemos pensar em mudanças de absolutos, em relativismo ético ou bíblico. Antes, devemos pensar naquela capacitação espiritual, social e politica de agir consistente e adequadamente com o novo cenário onde as mudanças e rupturas ocorrem, de maneira que a influência da igreja se faça sentir sem transigência, contemporização, falseamento da verdade ou perda de identidade histórica como povo de Deus.

A partir do último século, os padrões de moralidade social, as mudanças na ordem política, econômica e consequentemente social, foram repentinas e violentas. Não estavam no campo das expectativas da igreja. O exemplo tipico foi a queda do regime comunista na antiga União Soviética e nos países do leste europeu. Como resultado tivemos uma espécie de reavivamento do capitalismo sob a ótica daquilo que foi denominado de “neoliberalismo.” Estas rupturas dinamizadas pela ótica do pós-modernismo, interferiram na teologia, principalmente no assim denominado néo-pentecostalismo com sua ênfase na prosperidade financeira como sub-produto da fé.  Aqui surge um conflito, quando se procurou defender tal tese de prosperidade, sem ferir a ética e justiça do reino, as quais devem se fazer presentes na ação, engajamento e militância da igreja. Se antes criticávamos o coletivismo ateu e totalitário (o comunismo) que privava o individuo de sua liberdade, como defender hoje um estilo de liberdade que sacrifica as massas? Sem abdicar da liberdade, como justificar o acúmulo de capital, a injusta distribuição da renda, a ganância dos poderosos, o isolamento das classes menos favorecidas,  como bíblica e teologicamente validas? Como em nome da democracia, a igreja pode conviver pacíficamente com a nova ordem pluralista que incentiva o relativismo ético? Como conviver com esta nova ordem sem perder o vigor da denúncia profética, a pureza doutrinária e a influência salgadora e iluminadora da igreja, sem compromissos com ideologias? Estes são assuntos para reflexão, oração e discernimento espiritual para uma ação consistente. 

2.     DIFICULDADE DE REORIENTAÇÃO FILOSÓFICA SEM PERDER A CREDIBILIDADE

Reorientação filosófica aqui, se relaciona com as estratégias, com a maneira de introduzir sistemas, onde as pessoas possam ser seguramente direcionadas, tanto existencial como historicamente. Quando a igreja muda, reconhece erros, substitui paradigmas, etc. Ela corre o risco de perder a credibilidade de seus membros, talvez por causa dos mitos que ela mesma cria, pelas instituições endeusadas, normas, doutrinas e especulações aceitas como verdadeiras, aparente infabilidade dos lideres, etc. Por exemplo, houve um tempo que o comunismo era o principal alvo de ataque da igreja. Uma maneira religiosa de defender uma ideologia política. Livros e mais livros foram escritos sobre o assunto, principalmente por autores norte americanos. Depois, não havendo mais comunismo à combater escolheu-se a nova era, curiosamente uma negação do que o comunismo pretendia, isto é: “Acabar com as religiões na face da terra.” Então, experimentamos uma especie de reavivamento do misticismo medieval. O poder político e econômico sublimam o misticismo e a alienação que se tornam ópio para o povo, enquanto seus detentores se tornam cada vez mais opressores. Todavia, hoje já nos encontramos no campo da frustração. A nova era não foi um alvo fixo, não temos resultados tangíveis; é como perseguir uma nuvem de fumaça. Quando o inimigo não é localizado a guerra espiritual se torna um paliativo sem substância, subjetiva e seus resultados não podem ser avaliados, pois tudo continua ai: “O espiritismo, a maldade, a violência, a injustiça social, a idolatria, as religiões orientais, toda forma de ocultismo, imoralidade, etc.”

Quando a igreja não consegue discernir as causas espirituais que lhe permitam uma ação consistente na oração, na evangelização e na ação social; quando ela não consegue ver com compaixão as agruras da sociedade, quando ela não consegue ficar ao lado dos menos favorecidos, quando ela não tem visão profética para reorientar seus membros, perde sua credibilidade como instrumento de transformação social. 

3.     INCAPACIDADE DE DESMISTIFICAR OU DESMITOLIGIZAR, PARA VIVER O REINO DE DEUS COM TRANSPARÊNCIA

A igreja é pródiga em produzir mitos, santos, ídolos, movimentos, ênfases, etc. que logo substituem a fé, o amor e a esperança no contexto da simplicidade evangélica de servir sacrificialmente uns aos outros. Os mitos, os ídolos são projeções do povo que neles se realiza sua fé sendo aquilo que- gostaria de ser e não pode.

A incapacidade de desmistificar ou desmitologizar ocorre porque o castelo dos sonhos ruiria. Os lideres gostam desta posição e o povo “necessita” deles assim, principalmente numa sociedade de baixa estima social. Para viver o sagrado de forma transparente e verdadeira é preciso antes de tudo, ser humano, recusar o endeusamento que tira a naturalidade da fé em Deus. A liderança da igreja deve ensinar o povo à buscar a Deus, não sucesso, prosperidade, fama, prestigio pessoal, etc, a palavra de Deus, não pode ser mercadejada e adulterada em seu conteúdo ético e espiritual.

Oh Senhor! Dá-nos a graça de sermos humildes, torna-nos servos uns dos outros em amor, e Tu Senhor, receba desta maneira Toda a Glória, pois só Tu és digno. Amém!  

Tópico: Conflito e Busca de Identidade da Igreja nos Tempos Atuais

Não foram encontrados comentários.

Novo comentário