Adão e Eva no Éden

Adão e Eva no Éden

Gerard Van Groningen

Gênesis 2.8 - 3.7

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O texto bíblico é específico quanto à origem do Éden: [wayyitta yehwâ elohîm gan-be eden miggedem] (Deus Yahweh plantou um jardim no Éden, ao leste). O lugar citado é considerado como sendo o Vale Mesopotâmico entre as partes mais baixas dos rios Tigre e Eufrates. Mais importante do que o lugar exato é o que se segue: [wayyasem sam 'et-ha 'adam] (e lá ele colocou o homem). O homem que o Deus Yahweh havia formado foi colocado no seu lugar no cosmos. O jardim era bem estabelecido; tinha todos os tipos de árvores para que Adão tivesse comida (Gn 1.29; 2.16). Tinha abundância de água (quatro nascentes). Era bem suprido de recursos minerais (Gn 2.12). Era um lugar de beleza (Gn 2.9).

O jardim do Éden era o lar do homem; desde que ele era uma pessoa real, portador da imagem de Deus e vice gerente pactual, o jardim era seu palácio e pátio real. Era o lugar em que o homem deveria cumprir o seu mandato cultural (Gn 2.15); que ele fez isto é evidenciado pelo fato de ter nomeado os animais de acordo com a sua natureza. O Éden foi o domínio real do homem, era seu reino. [5] Este palácio e reino deveria ser também o lugar de comunhão com Yahweh e com a ajudadora que Yahweh havia lhe dado. Era para ser um local espiritual e social. Era o lugar onde o casamento e a vida familiar chegariam a uma expressão rica. De fato, era o cenário para uma vida pactual enriquecedora e completa. [6]

O jardim do Éden era, também, o lugar do conhecimento e da vida. Estes dois aspectos foram representados pelas duas árvores que Yahweh destacou. [7] A árvore da vida, plantada no meio do jardim (Gn 2.9), teve, como entendido, uma função sacramental. [8] Inicialmente, Adão e Eva não foram proibidos de comer dela. Uma vez tendo desobedecido, eles foram proibidos porque tinham perdido o direito de participar do “símbolo sacramental”, a árvore que falava da vida contínua em cada aspecto e dava a eles a segurança a respeito desta vida. Este papel da árvore indicava que o homem e a mulher eram finitos; eles não possuíam vida e não foram assegurados da sua continuação em termos de seu próprio ser, potencial e desejo essencialmente independentes. Eles eram dependentes de Deus Yahweh que, tendo os criado, deu-lhes a vida (Gn 2.7) e continuaria a ser sua fonte constante de vida. É interessante notar que “a árvore” é citada nas Escrituras como um símbolo de vida, e em algumas circunstâncias, a garantia da vida (Sl 1.3; 52.8; 92.12; 128.3 [videira frutífera]; Pv 3.18; 11.30; Jr 11.16; 17.8; Dn 4.10; Ap 2.7; 22.2, 14,19). Comer da árvore é participar e ter a garantia da vida sem fim.

O jardim era o lugar do conhecimento. A árvore é citada como [ez hadda'at] (a árvore do conhecimento). O verbo [yada] (saber) traz várias nuanças específicas: conhecimento racional, consciência geral, conhecimento empírico, conhecimento de outros através da comunhão e do saber pessoal íntimo como quando o macho e a fêmea se unem sexualmente. Todas estas nuanças estavam, indubitavelmente, presentes no jardim. Quando se fala da árvore como “do conhecimento do bem e do mal”, geralmente se entende que a referência não é à consciência geral de vários conceitos. O homem era ciente do que era bom; de fato, ele experimentava isto diariamente. Estudiosos tem contendido sobre o significado específico da frase “conhecimento do bem e do mal” e não tem sido unânimes nas suas conclusões. [9] Kroeze acreditava que ela significava que o homem e a mulher “saberiam tudo”. [10] A frase provavelmente inclui um conhecimento empírico do mal pela submissão a ele e envolvimento nele. Wenham prefere a interpretação de que a frase “conhecimento do bem e do mal" se refere à autonomia humana e à auto-suficiência de conhecimento. [11] Um fator essencial a ser entendido é o de esta árvore, cujo fruto foi proibido, representava o desejo expresso de Yahweh para o homem e para a mulher. Eles foram feitos cientes da verdade de que Yahweh, exercitando sua soberania, impôs limitações a eles. Isto significava que existiam experiências e aquisições possíveis em que a humanidade não deveria estar envolvida ou apoderar-se. Deste modo, Deus Yahweh estabeleceu um limite para as experiências de vida dos seus vice gerentes. Eles, conhecendo e gozando da bondade que era deles no Éden, não deveriam, em orgulho e auto-engrandecimento, desejar e procurar alcançar mais do que aquilo que lhes havia sido dado. Desejar, procurar alcançar e tomar o proibido resultaria em um esforço para ser como Deus (Gn 3.22). Isto, por sua vez, resultaria em alienação, separação, destruição e morte. Yahweh, que sabia, não empiricamente, mas objetivamente como o conhecedor de todas as coisas, o que era a morte, advertiu ao homem e à mulher desta certeza caso eles desejassem, buscassem e tomassem o proibido.

A esta altura, deveríamos considerar a questão que é indagada freqüentemente: Existia morte no Éden antes da queda? Meredith Kline entendia que a humanidade poderia e tomou vida animal, e alguns animais comiam outros animais antes da queda. [12] Quando Deus Yahweh advertiu ao homem e à mulher sobre as conseqüências de se comer da árvore proibida, dizendo que eles poderiam morrer, eles devem ter tido uma consciência do que Deus queria dizer quando disse “morrer”. “Morte”, no sentido de separação, fim de um processo, e deterioração, foi experimentada no jardim. O sol e a lua funcionavam como controladores das estações; o homem e a mulher podiam comer frutos e sementes. Estes fatores, certamente, implicam em que as árvores e a vegetação seguiam ciclos de crescimento. Eles produziam flores cujas pétalas caiam (separavam); seus frutos amadureciam e eram colhidos ou caiam (separavam); quando o fruto era comido, o processo digestivo causava deterioração. O próprio processo de vida envolvia separação no fim de um ciclo de crescimento; comer significava “consumir o que era”; a deterioração era necessária para que as pessoas e os animais pudessem viver. Dizer, no entanto, que o sangue, portador e personificação da vida (Lv 17.11), foi vertido é dizer mais do que o texto bíblico autoriza. Mas a possibilidade deste derramamento do sangue da vida, a separação do sangue, fôlego, e carne (morte física), o distanciamento de pessoas, a quebra da comunhão, a cessação do processo da vida e exercício do amor foram enfatizados: [kî beyom 'akaleka mimmennû môt tamût] “porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. A forma absoluta infinitiva de môt com o qal imperfeito acentua a ênfase. Foi uma declaração de certeza absoluta.

Adão e Eva no Éden eram vice gerentes pactuais. Eles tinham grandes privilégios vivendo e servindo na “casa do trono e domínio real” de Deus Yahweh. Mas eles não deveriam ser como Deus, ou desejar e buscar ser “deuses”. Yahweh colocou limitações sobre eles e diante deles. Este fato era da própria essência de um pacto feito unilateralmente por um Mestre soberano. Adão e Eva eram limitados no uso dos frutos do jardim; eles receberam parâmetros para a sua comunhão com Yahweh. Eles receberam instruções a respeito da vida familiar e social; o homem deixaria seus pais, quebraria aquela ligação íntima a fim de apegar-se intimamente à sua esposa. O homem seria uma só carne com uma mulher para vida. Mais, o homem foi feito ciente de que a companheira, ajudadora, uma parceira geradora de vida, não poderia ser tomada do mundo animal (Gn 2.19).

Os vice gerentes, em comunhão e serviço pactual com Yahweh, receberam a oportunidade de responder ao seu Senhor de tal maneira que pudessem exercitar a liberdade dentro das limitações estabelecidas, demonstrar suas prerrogativas e potencialidades reais dentro das diretrizes recebidas, e gozar da bondade (bem aventurança) e paz que a vida Edênica e o serviço ofereciam. Este não foi um período de experiência; o homem e a mulher foram exortados e receberam a oportunidade de serem o que Yahweh os tinha feito para ser. Não existia um pacto de obras, [13] um arranjo pelo qual o homem e a mulher se tornariam meritórios pelo fazer ou trabalhar. Eles não tinham nada para merecer; pela bondade de Deus eles eram seu povo pactual, membros da sua família real, dotados com potenciais e possibilidades de serem agentes efetivos e produtivos no reino cósmico que estava para revelar-se de várias formas, constantemente enriquecedoras. Esta revelação aconteceria enquanto Deus Yahweh o dirigia e os vice gerentes cooperassem cumprindo seu mandato pactual tríplice.

Adão e Eva eram os representantes pactuais de Yahweh. Como vice gerentes, eles representavam seu Rei soberano no seu reino cósmico. Seu status, prerrogativas, responsabilidades e bênçãos eram tais que eles, de fato, ocupavam a mais alta posição e recebiam privilégios reais como nenhum outro ente criado. Eles receberam responsabilidades sobre cada faceta da vida. Eles deveriam governar com Yahweh sobre tudo o que tinha sido criado. De fato, eles estavam na mais alta posição possível no reino cósmico de Yahweh. Todos os aspectos da criação, todas as leis e todas as funções, como ordenado e estabelecido por Deus Yahweh, estavam no lugar. Adão e Eva foram designados, não para serem co-criadores, mas vice gerentes com Yahweh. Deste modo, Deus preparou e iniciou o processo de revelar seu desígnio maravilhoso para e dentro do reino cósmico. Ele estabeleceu e iniciou o processo da história.

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NOTAS:

[5] - Ver a discussão de Meredith Kline “Kingdom Prologue”, uma apostila não publicada (South Hamilton, Mass., 1986), 1:37-45.

[6] - Blocher aceita que o homem estava em uma relação pactual com Deus no Éden; uma razão básica é que o nome pactual “Yahweh” é usado (In the Beginning, 111-12).

[7] - John H. Kroeze, Die Tuin van Eden (Pretoria: N. G. Kerk Boekhandel, 1967), afirmou corretamente que as referências “da vida” e “do conhecimento do bem e do mal” não foram nomes botânicos, como terebinto e palma, mas antes referia-se ao futuro desenvolvimento da humanidade (22).

[8] - Gerhard Vos, Biblical Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1948), 29-33.

[9] - Ver a lista e Wenham e a avaliação das cinco interpretações (Genesis 1-15, 63-64).

[10] - Die Tuin van Eden, 24. Gerhard Von Rad, Genesis, trad. John H. Mark (London: SCM, 1956), também sustentava essa visão; ele enfatizou que a frase não deveria ser considerada “mesmo no sentido moral”, mas simplesmente, “tudo”(79).

[11] - Genesis 1-15, 63-64. Ver também Kline para esta visão (81).

[12] - Ibid., 42-43.

[13] - Ver a discussão de O. Palmer Robertson em O Cristo dos Pactos (Campinas: LPC, 1997), 54-57 checar pags.; e William J. Dumbrell, Covenant and Creation (Nashville: Nelson, 1984), 44-46.

Fonte: Criação e Consumação - Volume 1. Gerard Van Groningen. Editora Cultura Cristã.